ETFs e Gestão Ativa (Parte II): Diversificação Internacional

Dando seguimento à série "ETFs e Gestão Ativa".
Uma carteira pode possuir ações de bancos, energia, commodities, varejo e infraestrutura e, à primeira vista, parecer bastante diversificada.
Mas, se todas essas empresas estiverem concentradas no Brasil, boa parte do patrimônio continuará exposta aos mesmos fatores: atividade econômica doméstica, juros, inflação, política fiscal, ambiente regulatório, câmbio e percepção de risco do país.
Existe diversificação entre empresas e setores, mas permanece uma concentração geográfica importante. É justamente aí que entra a diversificação internacional.
Familiaridade também pode gerar concentração
Investidores tendem naturalmente a alocar parcela maior do patrimônio no mercado que conhecem melhor. Esse comportamento é conhecido como home bias.
A preferência é compreensível. Empresas locais são mais conhecidas, as informações parecem mais próximas e os investimentos são denominados na moeda utilizada no cotidiano.
Mas familiaridade não elimina risco. Quando grande parte do patrimônio está exposta à mesma economia, acontecimentos domésticos podem afetar simultaneamente diferentes posições da carteira.
Diversificar internacionalmente significa procurar reduzir essa dependência e acrescentar novas fontes de risco e retorno ao patrimônio. Investir fora não significa apostar contra o Brasil. Diversificação internacional não pressupõe pessimismo com o mercado brasileiro. Um investidor pode ser otimista com o país e ainda reconhecer que não precisa fazer todo o patrimônio depender dessa visão.
Empresas americanas, europeias, asiáticas e de outros mercados estão expostas a setores, moedas, ciclos econômicos e estruturas de juros diferentes.
A lógica não é descobrir antecipadamente qual país terá melhor desempenho. É evitar que um único cenário precise obrigatoriamente dar certo para que a carteira funcione.
Geografia é apenas uma dimensão
Diversificar internacionalmente também não significa simplesmente comprar o maior número possível de países. É preciso observar o que existe dentro de cada mercado.
A bolsa brasileira, por exemplo, possui exposição relevante a bancos, commodities e empresas ligadas à economia doméstica.
Outros mercados possuem peso maior de tecnologia, saúde, indústria, consumo global ou diferentes segmentos de serviços.
Portanto, uma carteira internacional pode ampliar simultaneamente a diversificação: (i) geográfica; (ii) setorial; (iii) cambial; (iv) econômica e; (v) em alguns casos, também de fatores de risco.
Isso não elimina volatilidade. Tampouco significa que mercados internacionais se comportarão sempre de maneira diferentes, pois em crises globais a correlação entre as diversas variáveis apresentadas pode aumentar significativamente. Ou seja, diversificação reduz concentrações, mas não elimina riscos.
A moeda também faz parte da carteira
Ao investir em ativos internacionais, o investidor brasileiro passa a observar também o efeito cambial. Um investimento pode apresentar determinado desempenho em sua moeda original e resultado diferente quando medido em reais.
Essa exposição pode ajudar a diversificar um patrimônio excessivamente concentrado na moeda doméstica, mas também acrescenta volatilidade. Por isso, a pergunta não deveria ser simplesmente: “É bom ter dólar?”
Mas: “Que função a exposição cambial exerce dentro do patrimônio?”
Novamente, a função vem antes do produto.
ETFs tornaram a implementação mais simples
A expansão dos ETFs permitiu acessar mercados internacionais de maneira muito mais eficiente. Existem ETFs amplos de ações globais, mercados desenvolvidos, emergentes, regiões específicas, renda fixa, setores e inúmeras outras estratégias.
Mas a facilidade de comprar não elimina a necessidade de entender o que está sendo comprado. Um ETF negociado nos Estados Unidos pode investir globalmente. Outro pode investir apenas em tecnologia. Um terceiro pode ser negociado em Nova York e possuir exclusivamente ações brasileiras. Os três são negociados no exterior, mas apenas isso não significa que ofereçam a mesma diversificação.
Onde o ativo é negociado, em que moeda é cotado e a qual risco econômico está exposto são conceitos relacionados, mas diferentes.
Quanto investir fora (com ETFS E GESTÃO ATIVA)?
Não existe percentual universal. Objetivos, patrimônio, horizonte, despesas futuras, tolerância ao risco, necessidade de liquidez e exposição econômica já existente precisam ser considerados.
Antes de definir qualquer percentual, talvez sejam mais úteis outras perguntas:
De quais riscos meu patrimônio depende hoje?
Que exposições estão excessivamente concentradas?
Que novas fontes de retorno desejo acrescentar?
Qual função a parcela internacional deverá cumprir?
A resposta pode envolver crescimento, diversificação geográfica, proteção patrimonial, moedas, setores pouco representados no Brasil ou uma combinação desses objetivos.
Internacionalizar patrimônio exige intenção
Enviar dinheiro ao exterior não significa automaticamente diversificar. A verdadeira diversificação depende daquilo que foi acrescentado ao conjunto do patrimônio.
Internacionalizar uma conta é uma operação. Internacionalizar efetivamente uma carteira é uma decisão de alocação.
Depois de compreender por que a diversificação internacional pode fazer sentido, surge então a pergunta mais importante: como transformar esse princípio em uma carteira coerente, sem simplesmente acumular países, ETFs e moedas?
Esse será o tema da terceira parte desta série.




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